sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A cor do mapa, por Marcos Coimbra

Enquanto proliferam explicações e opiniões a respeito da vitória de Dilma, é preciso estar atentos aos fatos. Sem eles, ficam somente as impressões e as versões.
Algumas sequer nascem da interpretação de alguém, com a qual se pode concordar ou discordar. São as mais perigosas, pois não estão claramente marcadas com um sinal de autoria. Por não tê-lo, terminam parecendo verdades naturais, como se fossem apenas “dados de realidade”.
Tome-se o modo como a mídia costuma apresentar os resultados da eleição, sempre através de mapas. Todos os veículos os usam, colorindo os estados onde Dilma ganhou de uma cor e aqueles onde Serra se saiu melhor de outra. Não por acaso, pintam os primeiros de vermelho e os outros de azul.
Vistos sem maior reflexão, esses mapas mostram um retrato enganoso da eleição. Pior, podem induzir a uma impressão equivocada e a versões incorretas sobre a eleição que acabamos de fazer.
O que vemos é um Brasil dividido quase ao meio, ao longo de uma linha que começa no Acre, passa pela divisa norte de Rondônia, Mato Grosso e Goiás, e vai até o Atlântico, na altura do Espírito Santo. Abaixo dela, tudo fica azul, salvo o Rio de Janeiro, Minas Gerais e o pequeno Distrito Federal.
O Brasil vermelho inclui o restante do Norte (interrompido pelo azul de Roraima) e o conjunto do Nordeste. Esse seria o Brasil da Dilma, enquanto o outro, o de Serra.
É fato que Serra venceu no conjunto nos estados do Sul e em quase todos do Centro-Oeste, assim como em São Paulo e no Espírito Santo. Mas isso está longe de querer dizer muito sobre o significado da eleição.
Certamente, nada tem a ver com uma tese muito cara a alguns analistas, segundo a qual Dilma deveria sua vitória ao “Brasil atrasado” e ao eleitor miserável. Como esses mapas revelariam, o Brasil azul, o mais rico e moderno, preferia Serra. Foi o pobre e arcaico, o vermelho, que impediu que ele se tornasse presidente.
Essa visualização da eleição corrobora, assim, uma visão dualista e preconceituosa, muito frequente na mídia e em parte da opinião pública. Nela, a derrota do azul pelo vermelho viria da mistura de paternalismo e demagogia promovida por Lula e sustentada pelo Bolsa Família. Os mapas coloridos seriam a evidência de que sua estratégia foi bem sucedida, apesar de imoral.
Quem considera os números da eleição vê outra realidade. Dilma não venceu “por causa” do Nordeste e do Norte. Ela venceu porque venceu nos “dois Brasis”.
O modo mais imediato de mostrar isso é comparar o voto que ela obteria se fossemos (como alguns até desejam) dois países: o Brasil sem o Nordeste e o Norte, e o Brasil por inteiro. Nessa hipótese, como seriam os resultados?
Ao contrário do que certas pessoas imaginam, Dilma teria sido igualmente eleita se o Nordeste e o Norte não votassem. Ela não “precisou” do Brasil mais pobre para vencer.
Somando os votos do Sudeste, do Sul e do Centro-Oeste, Dilma derrotou Serra. Ou seja: o predomínio da cor azul nessas regiões é verdadeiro, mas encobre uma realidade mais importante. Serra foi bem votado nesse conjunto de estados, mas perderia assim mesmo.
É com interpretações e versões que se conta a história de uma eleição. E é necessário evitar que prevaleça, a respeito das eleições presidenciais de 2010, uma versão que reduz seu significado e que não é verdadeira.
Dilma se elegeu com o voto de pessoas de todos os tipos, desde os eleitores mais humildes do interior e das cidades pequenas, até os setores mais educados e modernos de nossa sociedade, que vivem em metrópoles ricas e avançadas. Seu desempenho, segmento por segmento do eleitorado, não foi homogêneo (como não foi o de Serra), pois em uns ela se saiu melhor que em outros. Mas isso não invalida que sua candidatura tenha sido amplamente apoiada nos estratos de educação e renda elevados, como mostravam as pesquisas.
Mapas coloridos podem ser bonitos, mas, às vezes, mais atrapalham que ajudam.
[Publicado originalmente no jornal Correio Braziliense]

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.

A religiosidade no Brasil, Dilma presidente, a direita e a esquerda


Carta Capital
Recebi, em meu e-mail, uma carta crítica quanto à generalização que fiz de que a religiosidade é um terreno da direita. O debate é muito importante. Não há como se pensar a afirmação de uma nova hegemonia no Brasil sem repensar a religiosidade do povo, a sua incorporação no novo Brasil e no projeto de nação que estamos construindo.
O autor solicitou ser mantido em off, assim que publico apenas trechos:
“Olá, Paulo Cezar.
“Li com alegria o seu artigo “Eleição de Dilma é a maior vitória do lulismo no Brasil”… Apenas penso que você generalizou quando usou a expressão religiosidade para dizer que isso é terreno da direita.
“No Brasil a religiosidade é terreno da esquerda (graças a Deus). Se há alguns que se usam dela para o conservadorismo e a direita, há outras, e mais, que ajudaram muito no Lulismo, especialmente no resgate da cidadania dos mais pobres.
“Paulo Cezar, não entenda como crítica, mas apenas um complemento ao seu artigo.
“Um abraço.”
A manifestação tem origem em meu artigo anterior, de balanço das eleições. Lá escrevi: “Temendo ser invadida em seus espaços de atuação e apoio eleitoral (o que já vinha ocorrendo com os mais de 80% de aprovação de Lula), a direita se viu obrigada a, pela primeira vez, defender-se em seu próprio terreno. O terreno do preconceito. Do conservadorismo. Da “ética”. Da religiosidade e da hipocrisia na questão do aborto….”
A religião e a esquerda – De fato, a generalização feita não está correta.  A religiosidade como um todo não é um terreno da direita. Há diversos e importantes setores religiosos, na Igreja Católica e em outras religiões, que se coadunam com princípios e preocupações de esquerda. Não tenho acompanhado as mudanças que vem ocorrendo na religiosidade do povo, mas correntes como a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica, por exemplo, foram fundamentais para a construção do Brasil que temos hoje. Tiveram papel decisivo nos primeiros passos do PT e dos movimentos sociais em todo o país.
Por outro lado, talvez porque eu tenha inflexionado num sentido, também não posso me colocar de acordo quando a carta diz “No Brasil a religiosidade é terreno da esquerda (graças a Deus).”  Faltou, nesta correção, a afirmação de que a religiosidade TAMBÉM é terreno da esquerda no Brasil.
Religião sem hipocrisia – De qualquer modo, penso que este debate é extremamente necessário. A esquerda não pode, em face à religiosidade, reproduzir a mesma hipocrisia que a direita, só que com sinal inverso. Se se trata de construir um Brasil de Todos, é preciso pensar o tema da religiosidade dentro deste Brasil.
Na igreja católica, olhando de fora, a sensação é que, na última década, houve uma reação conservadora e uma diminuição dos espaços dos setores eclesiais mais vinculados às lutas sociais e à esquerda. Faz tempo que não se ouve mais falar, por exemplo, em Teologia da Libertação ou mesmo na realização de trabalhos mais visíveis das comunidades de base da igreja. A manifestação do Papa (ou o uso que fizeram dela para a campanha de Serra), a instrumentalização da questão do aborto e todas as baixarias lançadas contra Dilma na campanha, tomando por base a religiosidade do povo brasileiro, talvez tenha sido um dos piores momentos da história do catolicismo no Brasil, mas não podemos pensar que isso é fortuito. Pelo contrário, encarar com seriedade esse assunto é mais que urgente.
Imagino que o cenário não seja muito diferente em outros segmentos da religiosidade do povo. Os evangélicos, por exemplo, vem crescendo ano a ano. E também não podemos simplesmente imputar esse crescimento a uma manipulação dos desejos e sentimentos do povo. Entender  estas manifestações, sem preconceitos e sem a busca da instrumentalização política talvez venha a ser uma chave para a afirmação de uma renovação cultural religiosa do povo brasileiro.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

31 de Outubro de 2010: Dilma Roussef, primeira presidenta do Brasil!

Ivone Gebara *
Adital -
 
A vitória de Dilma é uma grande conquista para muitas de nós mulheres e para o povo brasileiro. Conquista não apenas política, mas de afirmação de que as mulheres no Brasil passam agora a simbolizar o mais alto escalão do poder público do país. É claro que isto incomoda muita gente, inclusive mulheres, para as quais tal representação simbólica não é necessária. Mas, agora todos os irados e as incomodadas terão que lidar com esse fato: Dilma é nossa presidenta! Nossa alegria pela vitória está misturada com várias apreensões. Uma delas é em relação à imagem que parte da imprensa quer apresentar de Dilma pelo menos no momento. Além de acentuar seu percurso de guerrilheira a chefe da Casa Civil, a meu ver honroso, apresentam-na como "feita" por Lula, empurrada pelo sucesso do presidente, necessitada de Lula, seguidora fiel do presidente. Sem negar o imenso valor de Lula e de seu papel nessa eleição, muitos acentuam a meu ver uma dependência indevida, como se ela não tivesse trajetória política própria. Esquecem que sua história pessoal com seus acertos e erros a levaram a este cargo máximo da República. Esquecem-se que sua experiência de mulher pública se deu em instâncias diferentes do que a dos cargos políticos eleitos pelo povo. Ela não só conheceu os porões do poder ditatorial, mas as tramas políticas institucionais de diferentes tipos. Fez caminhos que nem sempre a grande imprensa quis conhecer e divulgar. Por isso, sua experiência diversa fará dela uma presidenta diferente.
Além disso, invertem o que se dizia no passado em relação aos grandes homens: "Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher"! Agora é em relação às mulheres: "Por trás de uma mulher política deve haver sempre um grande homem" (que deve estar no fundo à sua frente). Assim se pensa em relação à Cristina Kischner e agora em relação à Dilma, embora os contextos e situações sejam diferentes. Assim se pensou em relação à Indira Gandhi, a Michelle Bachelet e a tantas outras. Que homens estariam sustentando-as no poder? Ou que homens poderão sustentá-las no poder? Que homens lhes darão as boas idéias para dirigir o país e os melhores conselhos para decisões presentes e futuras? Que homens serão seus ministros e conselheiros? No fundo a cultura brasileira ainda guarda uma acentuada e preconceituosa hierarquia de gêneros e, sobretudo uma divisão valorativa entre o trabalho doméstico e o público. É com certa desconfiança que se entrega o poder político a uma mulher identificada simbolicamente com as lidas domésticas. E isso é ainda mais evidente quando ela não aparece acompanhada por seu "primeiro cavalheiro". Os presidentes da república em geral são acompanhados por suas primeiras damas mesmo que já estejam na terceira ou na quarta dama. Elas precisam aparecer ao seu lado como figuras decorativas e mesmo quando são mulheres de qualidade excepcional devem estar em geral caladas. Pouco se conhece da vida e do trabalho da maioria delas. O importante é salvar a aparência. E afirmar que se respeita uma ordem social estabelecida que muitas vezes é ordem fundada na hipocrisia. Mas, quando a presidenta eleita não tem "primeiro cavalheiro" e aparece andando sozinha apoiada nos próprios pés, íntegra e falando em nome da nação que a elegeu, os gigantes do poder só vêm uma alternativa para seu medo: desprestigiar essa mulher e nela as mulheres. Têm a audácia de mostrar propagandas representando-a como boneca oca ou com um homem desenhado no seu fundo. Não consideram a autonomia feminina, sua força criativa e suas capacidades pessoais. De todo jeito, lhe dão chances, sobretudo, se for rodeada de homens políticos cada um tentando abocanhar um pedaço da fatia pública política.
Se ela, Dilma, faz um discurso de agradecimento depois da eleição que para muitas pessoas foi uma verdadeira síntese de sua política na qual incluiu sua condição feminina e a de todas nós brasileiras, dizem que não houve nada de novo. Insistem em afirmar que o discurso foi lido, que é obra de muitas mãos ou que foi longo demais ou que não contemplou isso ou aquilo. Pode até ser em parte verdade. Mas, não há discursos universais e englobantes de toda a complexa realidade em que vivemos. Todo o discurso tem seus limites e seu ponto de vista imediato. No fundo, para muitos não se trata do discurso. É misoginia à flor da pele ou correndo pelas veias.
Atrevo-me a denunciar as muitas violências públicas em relação às mulheres como um ato político educativo preventivo nesse novo momento histórico. Igualmente é uma chamada de atenção para todos nós, mulheres e homens, em relação aos nossos preconceitos e a nossa incapacidade de acolher e provocar o diferente. Escrevo contra os muitos dragões poderosos que estão sempre preparados a lançar seu fogo destruidor acabando com as esperanças do povo e suas pequenas conquistas. Com certeza eles estão enfurecidos com a vitória de Dilma, a vitória de uma guerreira pela liberdade dos pobres, a vitória em parte representativa da força das regiões norte e nordeste afirmando sua cidadania e sua resistência. Também aqui se acusa o povo de ser ignorante e buscar apenas sua sobrevivência ou os favores do poder ou de seguir cegamente os líderes políticos do momento. Mas como ser politicamente consciente se a barriga está vazia? Como sobreviver se não há casa, comida e trabalho? Como sobreviver com o latifúndio, com os senhores ruralistas e com a mentira da propaganda consumista? O povo nortista e nordestino e outros provaram nesses últimos anos o gosto de uma cidadania incipiente apesar das inevitáveis contradições. E acreditaram que Dilma seria uma garantia para suas presentes e futuras conquistas.
Foram essas mulheres e esses homens da seca, dos mocambos, das palafitas, das ocas, dos terreiros, dos mangues com seus muitos aliados, que reconheceram em Dilma alguém capaz de, por sua história e suas lutas, sentir as dores do povo. Não sei como será seu governo. Não sei como será seu Ministério. Não sei como se conduzirá no futuro. Não sei igualmente que armações os dragões furiosos farão para derrubá-la ou para levantar falsos testemunhos contra ela.
Mas hoje ela está vestida de verde-amarelo, coroada com as vinte e sete estrelas que representam os estados do Brasil. Hoje, ela apareceu pisando nos dragões e com sua força interior conseguiu calar os seus urros e seu sarcasmo.
Reacende-se nossa esperança. Não vamos deixar Dilma sozinha. Vamos ser nós o povo organizado que governa o Brasil, o povo que opina, discute, sugere e cresce em conjunto. Sejamos muitas e muitos a organizar, a governar, a trabalhar a partir de nós mesmos. Temos que ser o que acreditamos que podemos ser. Começar mudando os nossos próprios comportamentos, com as pequenas coisas do dia a dia. Só assim podemos diminuir a força dos dragões e diminuir o medo que eles inspiram.
Para frente Dilma... Somos aliadas da mesma luta e da mesma esperança. Não estamos atrás de você, mas com você, ao seu lado nessa luta que é nossa.
Novembro de 2010.

* Escritora, filósofa e teóloga

Grandeza de ânimo


Dom Demétrio Valentini *
 Adital
A hora é de magnanimidade. O momento é de respeitar, relevar, e perdoar. Todos convidados para a grandeza de ânimo. Publicados os resultados das eleições, urge festejar a democracia. Por mais frágil que tenha se mostrado durante a campanha, ela acabou se fortalecendo com esta eleição. Podemos fortificá-la mais ainda, se soubermos levar adiante as muitas lições que esta campanha nos deixa.
Quem dá o exemplo é Dilma Rousseff, a candidata eleita Presidente do Brasil. Em seu discurso de domingo à noite, logo após a publicação dos resultados, disse textualmente: " Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles."
Estas palavras têm mais força do que todas as injúrias e difamações que a candidata recebeu durante a campanha. Tornam ainda mais expressiva sua vitória. A nobre atitude do perdão, precisa vir acompanhada da lúcida constatação dos fatos, e dos desafios que eles nos apresentam.
Na verdade, a candidata Dilma Rousseff precisou enfrentar uma avalanche enorme de obstáculos, desencadeados sobretudo pela carga de preconceitos, cuja virulência surpreendeu, e mostrou quanto a sociedade brasileira ainda está impregnada de resíduos tóxicos da ditadura militar.
O fato de uma candidata ter sido vítima da truculência do regime ditatorial, em vez de servir de oportunidade para lavar a honra de todos os que foram presos arbitrariamente pela ditadura, acabou dando o pretexto para muitos se acharem no direito de vestirem a carapuça de torturadores, e descarregarem sobre a candidata o ódio destilado nos porões do regime militar.
Esta pesada constatação nos coloca um grande desafio. Muitos assim pensam e fazem sem terem culpa das motivações equivocadas que movem seus preconceitos. Não sabem o que foi a ditadura militar. A anistia foi pactuada. Mas de novo se comprova que ela não pode prescindir da memória histórica, que precisa ser cultivada e trabalhada, para que toda a sociedade, conscientemente, erradique no seu nascedouro as sementes da ditadura, que foram plantadas com eficácia pelo regime militar. Caso contrário, elas continuam germinando, e produzindo seus frutos maléficos. A Escola precisa ensinar a verdadeira história da ditadura militar.
Este trabalho só pode ser feito com sucesso, se vier acompanhado da garantia do perdão e da superação de todo e qualquer tipo de vingança. De novo, as circunstâncias apelam para a grandeza de ânimo, que não significa timidez ou subserviência.
O exercício da cidadania, em tempos de campanha eleitoral, precisa levar em conta as circunstâncias de cada um. O que se pede de todos é o voto. Mas existe largo espaço de atuação, visando fornecer critérios para o discernimento dos eleitores.
Atendendo ao apelo de minha consciência, também procurei dar minha pequena contribuição. Agradeço as milhares de manifestações, públicas ou particulares, que expressaram sua concordância com as ponderações que fui fazendo cada semana, ao longo da campanha. Agradeço também aos que sensatamente ponderaram suas divergências, às quais procurei responder com respeito e atenção.
Por outro lado, recebi também algumas furiosas contestações, e alguns ataques de caráter pessoal, carregados de ódio, e revestidos da presunção de seus autores de se julgarem os justiceiros da ira divina, para condenarem ao inferno todos os seus desafetos.
Pela exorbitância de suas acusações, devo avisá-los que mereceram destino menos solene que o inferno. De modo que ainda podem contar com meu perdão.
Além do mais, não me preocupo com julgamentos humanos. Como Davi, também prefiro mil vezes cair nas mãos de Deus, do que ser julgado pela justiça humana.
Mas o resultado dessas eleições nos convida a tirar muitas outras lições, que, estas sim, nos motivam a deixar de lado condenações ou represálias, e contribuir com tudo o que estiver ao nosso alcance para levar em frente a nobre tarefa de construirmos juntos um Brasil justo e solidário.

* Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Papa foi instrumentalizado

Dom Tomás Balduíno *
Adital - 
O pior aconteceu nesse clima tenso, nervoso e apixonado de 2º turno: envolveram o Papa no nosso processo eleitoral. Nunca vi, em minha longa vida de bispo, um acontecimento como este. A coisa já está feita. Agora é esperar pelas consequências... O que houve de errado e que está criando uma grande perplexidade em nossa Igreja? Todos nós bispos sabemos que o ministério do Papa inclui uma relação direta com todos os féis católicos e com cada um deles, com plenos poderes. É seu carisma. Os comentários de vários bispos ao discurso de Bento XVI salientam isso. Sabemos, por outro lado, que no governo da Igreja são reconhecidas, como legítimas, as instâncias intermediárias, com poderes definidos pelo Direito canônico. Estas instâncias agem freqüentemente, com sabedoria, em base ao princípio de subsidiariedade, o que garante à Igreja um clima harmonioso e respeitoso levado pelo espírito de serviço, de comunhão e de colegialidade. Por esse princípio é dispensável o recurso à instância superior quando a instância colegiada pode resolver o problema, principalmente em casos complexos e espinhosos.
De fato, depois das denúncias contra a candidata Dilma Rousseff, por causa do aborto, houve apelos à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Esta, por sua Presidência, respondeu logo reafirmando "que a CNBB não indica nenhum candidato, e que a escolha é um ato livre e consciente de cada cidadão". Houve um atrito, pela imprensa, entre Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales e D. Luís Bergonzini, bispo de Guarulhos. Dom Bergonzini, não satisfeito, talvez, com a nota ponderada da Presidência da Conferência tomou pessoalmente a decisão de recorrer diretamente ao Papa, com farta documentação, conforme ele declara a 12 de outubro.
Eis aí perigo! E já está armado. Ninguém nega este poder do Papa. O que causou estranheza a muitos de nós irmãos bispos foi o fato de envolver de forma simplista e apressada a pessoa do Papa numa conjuntura complexa, delicada e apaixonada, como esta do Brasil, às vésperas da eleição do 2º turno. A coisa pareceu até golpe de última hora, sem tempo de discutir o assunto. Isso tem antecedentes. Foi o golpe dado pela TV Globo no Lula, após o debate com o Collor, garantindo a este uma vitória fácil. Agora é possível que, no quadro de uma população majoritariamente católica, diante dos temas das imagens religiosas, do ensino religioso nas escolas, da moral do aborto, com as bênçãos do Papa, acabe saindo vitorioso o Serra, e derrotada a Dilma.
Afinal, estão em jogo só duas pessoas. Não há alternativa. O voto nulo nem é questão. Ou ganha a Dilma ou ganha o Serra. Em outras palavras a eventual retirada dos votos da Dilma significa claramente transferência de voto para o Serra e, provavelmente, a sua vitória.
Era uma vez uma mulher surpreendida em adultério. Congregaram-se contra ela várias pessoas importantes da cidade para apedrejá-la, conforme a lei. Era só ela, mulher, não o varão parceiro do adultério. Foi aí que irrompeu da multidão a voz enérgica e inesperada de um Profeta dizendo: "atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado".
A pergunta incômoda que está sendo levantada por toda parte é a seguinte: O Papa foi corretamente informado do que vai acontecer no Brasil com a vitória do Serra? Teve notícia do que as bases camponesas, indígenas, quilombolas, as organizações das mulheres e dos pobres estão esperando nesta hora?
Perguntaram ao Serra: "você vai fazer reforma agrária" Resposta: "vou fazer sim, mas sem o MST". Muitos de nós temos lembranças amargas da pomposa organização do campo na Ditadura militar, porém com a criminalização e a dura repressão das organizações sociais dos camponeses. No governo FHC não foi diferente. É o modelo em que o Serra se espelha. Falam tanto em vida, porém, para o projeto que o Serra assume como seu, a vida não entra como fundamento ético, menos ainda como prioridade política. Para que tudo esteja a serviço do mercado capitalista globalizado, o aprofundamento e alastramento da miséria e a devastação da Mãe Terra contam, no seu projeto, apenas como "custos naturais do progresso". A busca do progresso vem junto com a transformação, da água, das matas, da energia, enfim, de todo o acervo nacional em mercadoria que passa a integrar o patrimônio privado da  minoria rica. Com relação ao aborto, o atual pomo da discórdia, nada garante que o Serra não liberalize a legislação sobre o aborto. Com efeito, foi assim que ele, o Fernando Henrique Cardoso e tantos outros "neoliberais" fizeram nos oito anos de governo.
Para terminar relembro o belo gesto de congratulação da Presidência da CNBB com o povo brasileiro pelo exercício da cidadania no 1º turno das eleições gerais. Como não formular votos para que hoje. mais do nunca, o povo brasileiro faça valer sua condição de sujeito democrático, adulto e autônomo neste histórico 2º turno?

* Bispo Emérito de Goiás - GO. Presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Os desafios diante de Dilma

Leonardo Boff
Os bispos conservadores que, à revelia da CNBB, se colocaram fora do jogo democrático e que manipularam a questão da descriminalização do aborto, mobilizando até o Papa em Roma, bem como os pastores evangélicos raivosamente partidizados, sairam desmoralizados.
Post festum, cabe uma reflexão distanciada do que poderá ser o governo de Dilma Rousseff. Esposamos a tese daqueles analistas que viram no governo Lula uma transição de paradigma: de um Estado privatizante, inspirado nos dogmas neoliberais para um Estado republicano que colocou o social em seu centro para atender as demandas da população mais destituída.
Toda transição possui um lado de continuidade e outro de ruptura. A continuidade foi a manutenção do projeto macroeconômico para fornecer a base para a estabilidade política e exorcizar os fantasmas do sistema. E a ruptura foi a inauguração de substantivas políticas sociais destinadas à integração de milhões de brasileiros pobres, bem representadas pela Bolsa Familia entre outras.
Não se pode negar que, em parte, esta transição ocorreu pois, efetivamente, Lula incluiu socialmente uma França inteira dentro de uma situação de decência. Mas, desde o começo, analistas apontavam a inadequação entre projeto econômico e o projeto social. Enquanto aquele recebe do Estado alguns bilhões de reais por ano, em forma de juros, este, o social, tem que se contentar com bem menos.
Não obtante esta disparidade, o fosso entre ricos e pobres diminuiu o que granjeou para Lula extraordinária aceitação.
Agora se coloca a questão: a Presidente aprofundará a transição, deslocando o acento em favor do social onde estão as maiorias ou manterá a equação que preserva o econômico, de viés monetarista, com as contradições denunciadas pelos movimentos sociais e pelo melhor da inteligentzia brasileira?
Estimo que, Dilma deu sinais de que vai se vergar para o lado do social-popular. Mas alguns problemas novos como aquecimento global devem ser impreterivelmente enfrentados. Vejo que a novel Presidente compreendeu a relevância da agenda ambiental, introduzida pela candidata Marina Silva.
O PAC (Projeto de Aceleração do Crescimento) deve incorporar a nova consciência de que não seria responsável continuar as obras desconsiderando estes novos dados. E ainda no horizonte se anuncia nova crise econômica, pois os EUA resolveram exportar sua crise, desvalorizando o dólar e nos prejudicando sensivelmente.
Dilma Rousseff marcará seu governo com identidade própria se realizar mais fortemente a agenda que elegeu Lula: a ética e as reformas estruturais. A ética somente será resgatada se houver total transparência nas práticas políticas e não se repita a mercantilização das relações partidárias(“mensalão”).
As reformas estruturais é a dívida que o governo Lula nos deixou. Não teve condições, por falta de base parlamentar segura, de fazer nenhuma das reformas prometidas: a política, a fiscal e a agrária. Se quiser resgatar o perfil originário do PT, Dilma deverá implementar uma reforma política. Será dificil, devido os interesses corporativos dos partidos, em grande parte, vazios de ideologia e famintos de benefícios.
A reforma fiscal deve estabelecer uma equidade mínima entre os contribuintes, pois até agora poupava os ricos e onerava pesadamente os assalariados. A reforma agrária não é satisfeita apenas com assentamentos. Deve ser integral e popular levando democracia para o campo e aliviando a favelização das cidades.
Estimo que o mais importante é o salto de consciência que a Presidente deve dar, caso tomar a sério as consequências funestas e até letais da situação mudada da Terra em crise sócio-ecológica. O Brasil será chave na adaptação e no mitigamento pelo fato de deter os principais fatores ecológicos que podem equilibrar o sistema-Terra.
Ele poderá ser a primeira potência mundial nos trópicos, não imperial mas cordial e corresponsável pelo destino comum. Esse pacote de questões constitui um desafio da maior gravidade, que a novel Presidente irá enfrentar. Ela possui competência e coragem para estar à altura destes reptos. Que não lhe falte a iluminação e a força do Espírito Criador.
* Leonardo Boff é teólogo e escritor

Primeira entrevista de Dilma como Presidente - Rede Record - 1/11/10